Se Essa Cama Fosse Minha...
Saí do meu quarto e migrei para o da minha
mãe. O dia começava quente em Manaus, queria dormir um pouco mais que, por
conta dos meus pensamentos perturbadores, não aconteceu. Logo, comecei a refletir
sobre o quanto o tipo de cama pode dizer sobre a nossa personalidade.
Tenho uma cama de solteiro. Essa
característica pertence às pessoas que tem asco pela vida a dois. Eu
sou solteiro convicto. Penso no casamento como uma instituição falida, fadada
ao fracasso. O Homem nasceu para a liberdade e, convenhamos que, casamento e liberdade
são conceitos totalmente antagônicos.
O casamento só ensina coisas que ninguém
precisaria saber de não fosse casado. O adultério é a prova fundamental que a
associação através do casamento exige um nível de confiança e risco demasiado
perigoso e desnecessário.
Querer outra pessoa apenas para si é mesquinho e
egoísta. Portanto, Dormir numa cama de solteiro é desfrutar da sua própria
companhia, sentir sua respiração, é aquecer-se com seu próprio calor.
Não arrumo minha cama. Atribuo essa
característica a pessoas que não se importam com a opinião alheia sobre si. Sair
de casa bem arrumado é uma raridade. O uso de roupas novas e bonitas não
passa de ostentação. A função principal das roupas é cobrir nossos corpos, não
servir de adorno. A exemplo dos estoicos, acho que para sobreviver só
precisamos de uma túnica e um barril.
Camas de casal. Uma pessoa solteira que dorme
numa cama de casal é alguém carente. Possivelmente divorciado ou que já se
deixou machucar por um relacionamento amoroso. Deita todos os dias pensando em
preencher o espaço que sobra na cama, sujando os lençóis com vários sabores na
esperança de encontrar depressa o "amor de sua vida"; trocando a
qualidade pela quantidade.
Casal numa cama de casal. Não há coisa mais
asquerosa. Essas pessoas precisam da companhia uma da outra para ser
feliz. Juraram amor eterno, mas nada o garante. As simples mudanças hormonais
que ocorrem em nossos corpos podem jogar por terra os juramentos. Ali elas
desfrutam da intimidade que a vida moderna propicia, afinal, dormir em cama e
quarto separados é coisa recente na história dos casais.
Camas grandes e arrumadas. Esse é o cúmulo da
estupidez. Essa pessoa adora a ostentação. Prefere a superficialidade ao
contato íntimo. Vive da simulação do real em suas atividades cotidianas. Sorri
por querer aparentar felicidade, chora pra se mostrar piedosa, doa para
parecer generoso.
Cama redonda. Essa desafia todas as noções
lógicas. Normalmente, dormimos em camas retangulares porque é simples de se acomodar.
Um círculo não tem lado. A não ser por uma questão profundamente duvidosa de
estética, dormir numa cama redonda é uma atitude desprovida de sentido; coisa
de deficiente intelectual.
Poderia escrever mais sobre as camas, mas preciso levantar e
trabalhar, afinal, cerveja não cai do céu e passar o dia deitado é visto como
vagabundagem; graças ao espírito capitalista que recusa as possibilidades de
produção a partir do ócio.
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