Reclusão e Avatar
Está claro para mim que as propagandas são as minhas principais fontes de inspiração. Talvez por um sonho frustrado dos tempos em que eu almejava trabalhar em um escritório criando formas de atingir o cliente e alcançar o objetivo premente de gerar consumo.
Agora, o objeto de reflexão foi um comercial da Claro, operadora de telefonia móvel que expandiu para o ramo de TV à cabo. Na cena, um casal está no cinema e a esposa reclama amiúde com o marido por conta da comodidade que uma sala de cinema não oferece. Para ela, o ideal seria ter ficado em casa para assistir o mesmo filme com todos os recursos que os canais fechados oferecem.
O que mais chamou atenção foi o fato de que, nesse caso, não é a propaganda que se interessa em moldar a sociedade e sim características sociais já há muito anunciadas por teóricos futuristas é que dão o "tom" da propaganda. Ora, vivemos numa era dedicada à individualidade. A coletividade, confraternizações, e possivelmente até mesmo a família tende a diluir-se, definhar.
Um exemplo disso é o aumento dos chamados “singles”, que são pessoas que optam por uma vida solo. Essa parece ser a tendência: morar sozinho e praticar atividades sozinho. As tecnologias digitais estão aí para corroborar esta ideia.
Em nossos dias, milhares de pessoas já vivem em uma vida de profunda reclusão. Exercitam-se em casa, trabalham em casa, alimentam-se em casa, divertem-se em casa e ainda se mantém em contato com os amigos diretamente dos seus aparelhos tecnológicos através do Skype, Facebook, Twitter, WhatsApp, etc.
As salas de bate-papo virtuais que infestam a Web propiciam o contato simultâneo com aqueles que realmente se deseja - um primo que mora na Inglaterra sempre mantém seu status como "offline" porque, segundo ele, assim pode escolher com quem quer falar, sem correr risco de ser incomodado. É um verdadeiro milagre, é estar e não estar ao mesmo tempo. Ao Homem Virtual pertence o milagre da Onipresença!
Se o que vivemos mesmo é a pós-modernidade essa será uma Era lembrada pelo culto à individualidade, pela esquizofrenia da exclusividade e pela deterioração da coletividade. Imagino o dia em que, mesmo quando for necessário sair de casa serão utilizados avatares, como robôs que controlaremos de nossa própria residência. Serão como nós mesmos no auge de nossa juventude, belos, aparentemente saudáveis sorridentes e artificiais – como tudo será um dia.
Tudo em nome de uma pretensa segurança que se busca – muitas vezes doentiamente. Cada vez mais surgem condomínios fechados com intenso sistema de segurança humano e tecnológico. Recentemente vi uma notícia apresentada pela Sandra Annenberg afirmando que os pais, na hora de escolher uma escola, se preocupam mais com a segurança do que com a qualidade do ensino.
O interessante é que quanto mais se busca essa segurança mais aumenta o sentimento de insegurança e mais se diminui a sensação de liberdade. O nosso tempo é marcado pela deterioração das relações humanas, sociais. Alimentar-se na frente de uma fogueira e contar as aventuras do dia já foi uma atividade de plena socialização para os nossos antepassados.
O mesmo ritual foi perpetuado aos pais de algumas gerações atrás quando se reuniam com a família em frente ao televisor e relacionar-se com os seus filhos e esposa. Dizer que somos seres sociais, ou que o Homem nasceu para viver em sociedade já foram afirmações genuínas. Minha geração é formada por seres antissociais, cada vez mais egocêntricos e individualistas.
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