Os Mortos Vivos

Interessante que mesmo depois de mortos, alguns predestinados continuam encantando, fazendo com que sua arte continue, permaneça. Definitivamente, a arte é imortal!
O filme “Tempos Modernos”, obra memorável de Chaplin, deveria ser considerado a oitava maravilha do Mundo. Antes de se comentar sobre a qualidade da filmagem, do elenco, do enredo, da sonoplastia (levando-se em conta os recursos técnicos da época), temos que lembrar que se trata, sobretudo, de uma profunda crítica social.
A alienação provocada pelo trabalho repetitivo, expressão máxima e extrema do fordismo, é explicitado. Com muitíssimo bom humor, Carlitos deixa sua mensagem. Trata ali de furtos motivados pela pobreza para saciar a própria fome e outras mazelas sociais. 
Ali podemos contemplar o talento e desenvoltura ante as câmeras de um dos mais bem sucedidos ateus. Gravado em 1936, mesmo alguém que nasceu em 1990 (assim como eu) pode relacionar-se com o gênio de Chaplin.
Um livro, uma pintura ou melodia também causa a mesma sensação de eternidade. Um dos livros que eu mais gostei de ler foi À Sombra das Chuteiras Imortais, de Nelson Rodrigues. 
O livro trata-se de uma singela reunião de crônicas esportivas, mas com as características marcantes do maior adjetivador de todos os tempos. As emoções humanas e, principalmente, a maneira como Rodrigues as interpreta, ressignifica e adjetiva é simplesmente inigualável.
De uns tempos pra cá me convenci de que sou um necrófilo. Tenho dúvidas se prefiro minha namorada cheirando a um perfume Chanel ou a formol. Melhor não fazer esse teste. 
A morte deveria tornar um contato inviável, porém a possibilidade de contemplar meus atores, músicos, escritores e filósofos favoritos enquanto ainda eram vivos me faz louvar as mídias que me permitem contemplar suas obras - e ainda pôr em xeque as barreiras impostas pelo tempo. Nunca pensei que diria isso, mas trata-se de um verdadeiro milagre. Mais útil e admirável que transformar água em vinho.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CURIOSO CASO DE RACINE NETO

O CARNAVAL DA VIDA

O Vírus e O Meu Trabalho na Hotelaria