Viver e Dar Frutos

A vida humana é como a de uma árvore. Somos plantados, germinamos, crescemos e morremos. Por mais que muitas vezes, a nossa existência, quando nos damos conta da sua importância já está anunciado o fim. Como o poeta/astrólogo romano Marco Manílio disse, “quando nascemos começamos a morrer”, não a viver.
Temos mais que o dever de produzir, dar bons frutos à sociedade. A produção a qual me refiro é a intelectual. Mas é justamente aí que reside o problema: a maioria só está interessada na velha e boa forma hedonista de levar a vida, uma espécie de laissez-paisse existencial.
Vivemos uma época em que o lazer é exageradamente divulgado. Lembro-me do tempo em que em Manaus só existia o Amazonas Shopping, mas hoje existem pelo menos sete. Isto significa que a demanda pelo lazer programado e controlado nestes ambientes aumentou significativamente.
Uma imagem com com uma legenda no Facebook me chamou atenção: “O Homem foi à Lua e tirou 5 fotografias. Uma garota vai ao shopping e tira 87”. Essa observação bem-humorada explica bem o que acontece. O que era relevante toma ar de desinteressante e o contrário acontece com intensidade avassaladora.
Das pessoas com que converso, conheço pouquíssimas que escreve alguma coisa, que se dedica às ocupações intelectuais, filosóficas, poéticas, etc. Todos preferem ir ao Shopping Manauara se enfartar de Bibsfiha a escrever um artigo científico. A humanidade está chafurdando na lama.
O que mais me assustou há algum tempo foi quando passei pelo período de monografia na Universidade e me fez pensar nos rumos do ensino superior no Brasil. Muitas pessoas na minha turma não tinham capacidade para escrever uma linha sequer. Alguns desistiram do curso por não ter capacidade para realizar uma pesquisa. Outros contrataram ghostwriters (escritores fantasmas). 
Obviamente eu não quero que a humanidade seja dotada de pesquisadores, que todos tenham incríveis dotes intelectuais, não é isso, afinal precisamos de braços para mover o mundo. O que cobro é que pelo menos os acadêmicos sejam intelectualizados.
Antes achava lindo ver um universitário com seus livros na mão e nem uma moeda no bolso. Sonhava com o dia que transpassasse os umbrais sagrados da academia, mas quando me vi cercado de idiotas me desestimulei durante os anos que passei ali. O que era visto anteriormente como um sonho se transformou em um terrível pesadelo.
Via erros ortográficos e gramáticos primários e uma incrível capacidade de banalizar o tema dos debates para se comentar fatos pessoais e opiniões extremamente subjetivas. Era como se o que se passou com eles em suas atividades cotidianas fosse mais importante que a difusão do conhecimento teórico, científico.
Tenho asco dos universitários de hoje em dia. Antigamente era uma garantia que quando alguém se declarasse universitário teria algo a oferecer. Isso tudo é culpa da maldita massificação que invadiu inclusive os rumos do ensino superior. Ortega y Gasset, com sua incrível sensibilidade, já observara antes mesmo da metade do século XX.
Lembro-me de uma aluna da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) que comentou uma teoria dizendo ser de Engels. No início escutei atentamente, mas logo atentei para o fato de que ela falava de Thomas Malthus. Claro que confundir nomes estrangeiros é normal, mas confundir pensamentos e pensadores é inaceitável. Apesar de viverem no mesmo século, Engels e Malthus são completamente diferentes. Esse acontecimento exemplifica bem a incapacidade intelectual dos acadêmicos brasileiros contemporâneos.


Viver e dar frutos está fora de cogitação. A vida virou um churrasco na laje, diria Pondé; ou talvez um grande Vaudeville. As pessoas estão interessadas em divertir-se, em se entreter, em arrumar um passatempo para abreviar suas vidas. Deixar um legado para a Humanidade é uma incapacidade ou um desinteresse? Talvez uma mescla das duas hipóteses.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CURIOSO CASO DE RACINE NETO

O CARNAVAL DA VIDA

O Vírus e O Meu Trabalho na Hotelaria