O Dente-de-Leão

Vinha num ônibus rumo ao centro da cidade quando uma visão me ocorreu: vi um dente-de-leão bailando ao vento. Meus olhos contemplaram aqueles movimentos, recheados de características físicas onde a gravidade era desafiada. Aquela centelha de vegetal era guiada pelo vento. Para onde o vento soprava aquela deveria ser a direção certa para o dente-de-leão rumar.
Um insight me ocorreu: Seria a nossa maioria como dentes-de-leão? Os humanos desde quando nascem são movidos pelos “ventos” da sociedade/cultura ao qual é inserido. Numa espécie de determinismo cultural, o que somos e seremos está condicionada, a uma primeira instância, à cultura que o indivíduo teve o azar de pertencer.
Em 1999, eu era uma criança cristã. Nasci numa família Adventista. Muito cedo empurraram os dogmas cristãos sem me perguntar o que eu queria, afinal, os pais sempre pensam que as suas crenças são sempre as melhores para seus filhos quando, muitas vezes, não são saudáveis nem para si próprios. Paradoxalmente, tudo me assustava. Tinha medo de fantasmas, cadáveres e até mesmo de Jesus (mais precisamente da figura deste que aparecia no programa de TV “Está Escrito” exibido aos domingos e apresentado pelo renomado Pastor Alejandro Bullón).
No dia 31 de agosto, muita gente acreditava mesmo ser o fim do mundo. O céu escureceu e caiu uma tempestade torrencial em Manaus. As crianças na Escola Agnello Bittencourt se esvaíam em lágrimas. Eu simplesmente apelava para todos os anjos. Miguel, Gabriel, Rafael, Muriel, todos foram intimados a vir me salvar. Realmente acreditava que minha vida teria um fim naquele dia. Mas, o máximo que ocorreu foi um eclipse solar que não foi visto na cidade por conta do temporal. O que aconteceu foi que, inocentemente, deixei que os ventos comandassem minhas escolhas, preferências e até mesmo em que acreditar. 
O mundo seria merecidamente purificado se as coisas fossem um pouco diferentes. Ainda nos tempos de Jesus, existia uma seita religiosa que acreditava que o Fim estava próximo. Os próprios discípulos pregavam em praças públicas municiados dos mesmos argumentos pífios e extremamente apelativos que os crentes de hoje. Estes ainda não entenderam que eles acreditam em conceitos arcaicos e preconceituosos, e que se há alguma coisa que merece seu bendito fim são as religiões, com todos os seus dogmas imundos.
Somente quando se libertar do cárcere que as religiões impõem, inclusive ditando a conduta social, ideologia e até mesmo a ciência; o Homem estará genuinamente pronto para iniciar uma fase mais glamorosa na sua existência terrena. Deixará de ser um dente-de-leão e estará apto para escolher os seus próprios rumos.

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