Pés Descalços
Infelizmente, por questões financeiras, tive que voltar a trabalhar. Estou num hotel de selva no momento. Um lugar lindo, com praia, lagos, animais das mais variadas espécies... uma natureza exuberante. Ontem após o trabalho resolvi dar uma volta na beira do Rio Negro. Calçado, andava pela areia contemplando as belezas do lugar onde nasci (Amazônia).
Mas algo me incomodava. Ainda com meu all star não podia sentir o sabor da areia. Aquela camisa verde com a qual trabalho me impossibilitava de sentir a maciez dos ventos. Há uma semana na função, já tinha cruzado essa praia várias vezes mas sempre com tarefas profissionais em mente. É o hóspede que chega ou o combustível que precisamos para gerar energia.
De sobressalto, tirei o calçado e a blusa e enrolei a barra da calça. Decidi sentir, desfrutar o que estava disponível. A deliciosa temperatura da água, a inesperada sensação sob meus pés me fizeram pensar estar pisando em algodão. Viver pode ser maravilhoso quando se está disposto a usufruir genuinamente do espetáculo que é a vida. Já comentei que trabalhar aos modos atuais vem a ser uma grande moléstia para mim. Sonho com o dia em que trabalho, diversão e aprendizado serão sinônimos em nossos dicionários. Nesse sentido, sou um discípulo fiel do do sociólogo italiano Domenico Demasi e de alguns filósofos estoicos como Diógenes e Sêneca.
Mas dessa vez resolvi encarar meu trabalho sob uma nova perspectiva. Minha escala compreende 10 dias de trabalho em regime de confinamento e 4 dias de folga. Sou um misantropo, ou seja, evito toda forma de contato social. Nos 4 dias que terei de folga serão suficientes para cuidar de questões burocráticas e ver as poucas pessoas que realmente amo.
Durante o confinamento, após minhas atividades tenho a oportunidade de me exercitar, ler livros ou assistir bons filmes e seriados. Ao invés de me preocupar com os empecilhos vou buscar as melhores formas de transformá-los em benefícios para minha existência.
O lugar é lindo! Na margem direita do Rio Negro, avisto todos os dias um espetáculo da natureza. Pessoas incríveis se hospedam conosco e nas horas vagas posso acessar bons conteúdos na Internet. Não apenas resolvi tirar meus sapatos para contemplar as areias da praia.
Desta vez resolvi tirar os sapatos que me impedem de sentir a vida da forma como ela está. Decidi não mais chorar quando grãos de areia cair nos meus olhos. Desta vez, em meio a um temporal de areia as pérolas colherei, transformarei em felicidade o que o mundo apresenta como intempéries. Não sonho com uma vida perfeita para atingir meus objetivos. Só preciso manter vivos os meus sonhos porque, parafraseando Albert Schweitzer, a maior tragédia de um homem não é quando ele morre e sim quando algo morre dentro de si quando o mesmo ainda está vivo.
Para entender melhor:
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