More and More

Na Introdução do livro Utopia, Thomas More – ou Morus se você preferir a forma latina – fala das dificuldades que foi escrever aquela obra. Para qualquer intelectual que não é financiado por um investidor ou agência de fomento, empreender suas pesquisas é um grande desafio.
Eu mesmo estou com alguns projetos pendentes por não ter como imprimir os formulários sem dinheiro, financiar minhas idas a campo ou me sustentar para dedicar meu tempo exclusivamente à ciência. 
Se não fosse por um financiador, dificilmente Da Vinci teria sido Da Vinci. É muito difícil ser criativo quando temos que dividir nossas preocupações entre a verdade do universo e a prestação que vai vencer.
Morus falava principalmente das horas impossíveis de se dedicar ao seu trabalho intelectual quando as dedicava a coisas fundamentais como o trabalho e o sono. Tive algumas tentativas infrutíferas tentando sacrificar meu sono, mas percebi que sou um imprestável quando o primeiro bocejo surge.
A solução que encontrei foi sair do meu emprego. Há algum tempo não sabia o quão satisfatório é ser você mesmo. Falta-me dinheiro, mas me sobram ideias. Nos últimos dias iniciei a redação de 3 títulos diferentes, provavelmente se tornarão livros. Sem contar um conto muito bonitinho que improvisei numa noite, enquanto esperava o sono chegar junto à minha pseudonamorada.
Minha vida familiar estava destruída. Tudo estava atrelado ao trabalho. A intelectualidade parecia cada vez mais morrer dentro de mim, enquanto eu vivia uma vida que não me pertencia. 
Nos últimos anos não tive tempo para me dedicar às pessoas que amo. Não quero ser daquele tipo de gente que morre deixando uma enorme conta bancária e um epitáfio cheio de lamentações. Prefiro um bolso vazio a um velório vazio.
Me preocupo com meu legado. O que estou deixando para as gerações futuras? Mais pessoas deveriam se fazer essa pergunta diariamente. Além do mais, nossa felicidade não deve estar atrelada a uma cifra bancária representada por um sistema numérico abstrato criado pelos hindus e disseminado pelos árabes...
Às vezes não tomo café-da-manhã para economizar alguns centavos. Isso não me molesta. Enquanto eu tiver um notebook, uma mente fértil liberta de tarefas cotidianas enfadonhas e conexão à Internet, acredito, terei tudo.
Enquanto há Wi-Fi, há vida! Vivamos os pequenos momentos, sejamos nós mesmos. Mesmo que isso nos custe caro ou, como no meu caso, não custe nada. 

Comentários

  1. Gostei desse texto. É bem dificil ser cientista hoje, a nossa vida cotidiana e atarefada não nos permite esse privilegio. É massacrante pensar que nós nos privamos de viver em prol muita vezes de quem tem esse tempo livre e não usa. Eu mesmo, essa semana sair de casa mais cedo para o trabalho de baixo de uma chuva torrencial para não atrasar; resultado? Fiquei resfriado passei muito mal e mais mal fiquei de perceber que debilitei minha saúde por uma pessoa (chefe) que tem tempo e dinheiro para usar em beneficio da ciência; espero não mudar se conseguir ficar rico. Afinal que conhecer um homem de poder a ele... Bom dia Renan! abraços.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pelo comentário e sua presença constante nesse espaço. Realmente é complicado. Esse ano consegui uma ajuda de custos e estou produzindo muito. Mas a vida cotidiana nos impõe certas questões que é difícil de conviver. Até breve! Abraços.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O CURIOSO CASO DE RACINE NETO

O CARNAVAL DA VIDA

O Vírus e O Meu Trabalho na Hotelaria