O Blasé na Música
Me agonia a forma como certas pessoas atuam como meros consumidores e nem se dão conta. Vejo como, por exemplo, elas trocam pelos smartphones os lançamentos musicais sempre acompanhados do aviso de que se trata de uma novidade, pertencente a um repertório novo, etc. As obras passam assim a ser descartáveis. A canção que se ouvia na semana passada é excluída e o que vale é o hit do momento. Coisas que são comuns numa sociedade onde se aprecia o instantâneo e que tem horror pelo antigo.
Lembro de uma vez, de quando ainda eu trabalhava no Teatro Amazonas, uma colega perguntou se eu não ouvia músicas mais recentes. Respondi que era muito raro. Não que eu despreze a produção fonográfica atual, mas acho muito arriscado. Prefiro garimpar os trabalhos dos meus músicos favoritos (todos produzidos décadas antes de eu nascer) do que ouvir uma música que me mandam pelo Whatsapp, confiando no gosto de outrem. Pra mim é mais conveniente usufruir de um trabalho já aclamado do que a possível perda de tempo que um áudio sem título poderá me ocasionar. Mas essa é uma questão bastante pessoal e possivelmente uma grande bobagem.
Não obstante, agora mesmo escrevo este texto enquanto ouço na vitrola um álbum do Kiss, uma das minhas bandas de Rock favoritas. E esse é um outro ponto também interessante: a música parece ter perdido o "valor de obra". As faixas das canções são distribuídas isoladamente, sem a ideia de compor uma obra maior e mais abrangente, que possivelmente tenha uma intenção e ideologia intrínsecas - ainda que enrustida. Os áudios são não apenas descartáveis como também descontextualizados, feitos para distrair; autenticando o consumismo parasitário de quem pertence a uma ordem social fragmentada.
A música em nosso tempo passou a ser apenas um item para o entretenimento. Prova disso é quando observamos aqueles astros envolvendo uma plateia fingindo que toca um instrumento, acompanhado descaradamente de playback ao fundo. Como num jogo onde um sabe que o outro sabe, mas simulam não saber e no final das contas uns e outros fingem sair satisfeitos. Numa ilusão que se autoperpetua. Usando na realidade os símbolos do real, diria Jean Baudrillard.
Um conselho: procurem mais a obras-primas, tente ouvir os álbuns inteiros, busque entender o contexto. Em vez de ser apenas um participante do sistema, tente ver além, ler nas entrelinhas, entender que a arte foi feita para mais do que a mera reprodutibilidade técnica ou para ser transformada em mercadoria. Música é vida! E a vida existe para ser contemplada.
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