Conhecimento e Utilitarismo

Sócrates, diz Ítalo Calvino em seu livro Por que ler os Clássicos, aprendia uma ária na flauta mesmo após sentenciado. Quando perguntado sobre o motivo - já que o cálice com cicuta estava por lhe ser servido - ele respondeu: preciso aprender esta ária antes de morrer. O filósofo não precisava de um caráter prático ou utilitário para despender algum tempo em uma atividade. Para ele, era algo simples e profundamente existencial.
Me martiriza ver a dimensão que o utilitarismo ganhou na contemporaneidade. Já perdi as contas de quantas vezes fui questionado sobre o porquê de ler tanto, porquê estudo filosofia, por quê estou cursando um mestrado em Sociologia e assim por diante.
O fato é que a maioria das pessoas acredita que as leituras precisam ser direcionadas para um fim ou utilidade, onde se precisa de um caráter tecnicista para qualquer atividade e involuntariamente essa crença acaba chegando ao nível do conhecimento.
Por coincidência, mais cedo estava lendo Macunaíma ou melhor, estava relendo afinal - mais uma vez citando Calvino - um clássico é uma obra que todos dizem reler e nunca ler. Infelizmente releio o clássico de Mário de Andrade por conta da minha dissertação, mas ainda assim percebo a importância de se ler livros consagrados, mesmo eu sendo um iconoclasta dedicado.
Nenhuma leitura é mais proveitosa que aquelas que fazemos por mero deleite. Uma pena que as coisas no mundo estejam tão estranhas, onde tudo se faz por necessidade incrementada de uma urgência agoniante.
O ócio é visto como um sacrilégio à religião da modernidade,isto é, ao capitalismo. O trabalho passou a ser encarado como uma forma de expiação de pecado e via para alcançar a graça - principalmente com a adoção do protestantismo como religião da burguesia em séculos passados. Logo, os estudos passaram a ser direcionados com o caráter técnico e utilitário em grades curriculares que cerceiam aos alunos mesmo a capacidade de pensar! 
No mais, peço que você experimente o saber pelo saber, não com uma finalidade específica e imediata, mas algo com um fim em si mesmo, para falar como Weber. Garanto que sem a orientação prática se conhece e aprecia o sabor do saber, em vez daquele amargo e eloquente gosto que uma leitura obrigatória, onerosa e desmotivadora, propicia.

Por dias melhores no porvir, rogai por nós. 

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