Linda e Alva

Anteontem tive a certeza que as mesmas pessoas que reclamam de como as coisas são ou estão são as mesmas que não fazem nada para mudar os males do mundo. Fui ao Hospital de Medicina Tropical e percebi o quanto a vida humana é descartável e amar uns aos outros torna-se cada vez mais uma utopia.

Acontece que estou com sintomas de uma doença na pele muito séria, possivelmente adquirida na área da mata onde fica meu alojamento no Amazon Jungle Palace. Fui 2 vezes ao hospital e a maioria das pessoas não me pareceu muito preocupada com minha situação.

Expliquei que trabalho na selva, que meu alojamento fica na beira de um lago e se vê muitos mosquitos e, pelo que se observa, o que eu tenho é Leishmaniose. Me disseram que não era o que pensava ser, que eu deveria ter ido pela madrugada para talvez pegar uma senha e conseguir atendimento.

O pior foi quando perguntei para uma enfermeira onde mais eu poderia conseguir ajuda já que precisava de um atendimento emergencial haja vista os inúmeros dias que estava apresentando os sintomas e ela, uma especialista, disse que não sabia.

Lindalva é o seu nome. Um nome que ecoa nos meus pensamentos corriqueiramente. Não por mágoa ou rancor, mas por ser um exemplo vivo que o juramento de Hipócrates virou mero discurso e que o desejo de cumprir a rotina e procedimentos padronizados são mais fortes que o altruísmo e a solidariedade.

Sei que cheguei depois do horário regular de atendimento, mas dada a gravidade da situação acho que poderiam ter sido mais atenciosos ou conseguir alguma forma (mesmo que paliativa) de aliviar os sintomas. Mais uma vez a racionalização do mundo por via da modernidade revela suas consequências.

Sigo buscando tratamento, espero que a minha pele, hoje escurecida pelas feridas, volte a ficar linda e alva como há alguns dias. Linda e alva que, por aglutinação, vou chamar Lindalva.

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