Merendando Feijoada

Uma coisa que me deixa pensativo é quando percebo que estou funcionando no piloto automático, fazendo o mesmo que todo mundo faz, da mesma forma que todo mundo faz. Uma história que ilustra a questão foi a ocasião em que meu irmão acordou à tarde, depois de uma siesta indolente, perguntando inutilmente por repetidas vezes:

- Vocês merendaram a feijoada?

Impossível lembrar disso e não rir. Há quem acredite que sua irritação era devida ao fato de não o terem acordado para compartilhar ao lanche à la europeia (sim, a origem da feijoada é europeia). Mas, oficialmente, a indignação do meu irmão uterino partia da ideia de que não se devia ter comido a feijoada depois do almoço, em substituição ao rotineiro pão com achocolatado. 

Mas, convenhamos, qual o problema de comer feijoada à tarde, à noite, de manhã? O mais importante é termos uma dieta equilibrada, com alimentos saudáveis - obviamente a feijoada não é paradigma para nenhuma dessas coisas. Mas, vamos entender um pouco da nossa história social.

É inegável que a Industrialização invadiu não apenas os nossos espaços físicos, como com a criação do Polo Industrial em nossa cidade, mas se fez penetrar também na própria esfera cultural. Como a contagem do tempo, por exemplo: antes do advento da modernidade, capitalismo e industrialização o tempo era medido de acordo com fatores naturais. Tínhamos os períodos de chuva, de seca, cheia dos rios, vazante, nascer-do-sol, solstício, pôr-do-sol etc.

A introdução do relógio mecânico modificou para sempre as nossas vidas, pois, basicamente, "fatiou" os dias em pedaços minúsculos e, o tempo que sobra, é preenchido com uma cínica burocracia. Parafraseando Simmel, a modernidade nos fez preencher nosso dia com pesagens, metragens, cotações, cálculos, medidas; nos fez preferir o quantitativo em detrimento do qualitativo, placidamente, em nome de um discurso racionalista que infestava o discurso iluminista e, posteriormente, também o positivista.

Muitas vezes acordamos e comemos pão, torradas ou tapioca. Acompanhados de um café, leite ou suco. Refrigerante, dizem os calhordas, faz mal pela manhã. O almoço e todas as outras refeições tem as mesmas cores, os repetidos ingredientes, os mesmos cortes e modo de preparo. São ingeridas nos mesmos horários, da mesma forma, com os mesmos instrumentos. O que é verdadeiramente estupendo se converte em trivial.

A vida converteu-se numa insuportável rotina. Para a maioria, eu deveria estar dormindo já que passa das 5h da madrugada. Acho que contemplarei o nascer do sol se eu não me perder nos links infinitos que minhas leituras na web me transportam. Talvez eu coma bife no café da manhã e um salgadinho quando me der fome. Posso assistir um seriado ou ir correr na orla. Eu escrevo todas as linhas da minha história! 

Não quero transformar a minha vida numa anarquia existencial, apenas tento fazer as coisas que eu gosto no momento em que tenho vontade. Tento ser menos escravo e mais autônomo porque a minha vida pertence somente a mim. Não quero um epitáfio cheio de coisas que eu poderia ter feito. Quero que digam que ali jaz a matéria de alguém que genuinamente viveu.

Um apelo eu faço aos meus: precisamos viver ao invés de sobreviver. Contemplem as coisas belas que a vida oferece. Não se entreguem às coerções infinitas que a sociedade nos impõe. Façamos jus ao sufixo Sapiens que foi acrescentado à classificação da nossa espécie. Sejam um pouco mais humanos, e muito menos autômatos. Este é meu desejo e minha prece. 
Amom!



Para entender melhor:

As Consequências da Modernidade - Anthony Giddens
Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil - Leandro Narloch
Mundialização e Cultura - Renato Ortiz
As Grandes Cidades e a Vida do Espírito - Georg Simmel 

Links:

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CURIOSO CASO DE RACINE NETO

O CARNAVAL DA VIDA

O Vírus e O Meu Trabalho na Hotelaria