Dia de Finados
Sou obviamente do
tipo que não segue tradições, mas ao mesmo tempo tenho uma vontade imensa de
colecionar novas experiências. Hoje fui ao cemitério com meus sobrinhos
Evelyn e Threvor visitar o túmulo do meu pai. Paradoxalmente, o cemitério
estava mais agitado do que os botecos.
Comprei flores azuis
que nunca vão murchar e deixei no túmulo, contando algumas frases clássicas e
outras histórias da vida do meu pai aos meus sobrinhos.
Tal qual Mário
Quintana, meu pai tinha uma ideia de epitáfio bem peculiar e curioso. Enquanto
o poeta mais famoso pôs a frase “Eu não estou aqui”, meu pai queria que
puséssemos em sua lápide o seguinte: “Aqui jaz, porém contra sua própria
vontade, Carlos Alberto Lima dos Santos”.
Ele era extremamente
inteligente e gozador, perspicaz e estimulante. Infelizmente, por questões
burocráticas, ainda não pudemos fazer modificações na sepultura.
O fato é que conversávamos
muito sobre a morte, o que fez que tal assunto se tornasse um dos meus
preferidos. Meu pai tratava sobre a morte com um certo desprezo. Ele era um
materialista, acreditava apenas naquilo que existe no mundo sensível. Como
Benjamin Franklin, ele se ocupava das coisas que sabia que realmente existia;
não perdia tempo com coisas que podem até existir, mas das quais não temos
certeza.
Estou certo que
reprovaria a minha atitude de deixar flores em seu sepulcro. Dizia ele que
depois da morte qualquer ação direcionado ao morto é inútil, por motivos
óbvios. Conforme cantava em verso em prosa, “o papai foi baluarte, dessa vida
sem igual”.
Acho que ele poderia
ter feito mais por mim durante minha adolescência, mas às vezes acho que ter me
amado infinitamente mais do que a si próprio foi o suficiente. Saudades é o que
resta, mas não de coisas que poderia ter dito ou vivido; apenas de coisas
maravilhosas que vivemos, as quais nunca mais se repetirão.
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