Ter ou Não Ter, Eis a Questão
Um dos textos que eu mais curto entre os clássicos da Sociologia é As Grandes Cidades e a Vida do Espírito, de Simmel. Interessante o trecho em que o autor faz certas reflexões sobre o dinheiro - questões essas que são amplamente exploradas e de uma forma mais sofisticada discutidas em seu livro Filosofia do Dinheiro - e que, de certa forma, a vida social se resume a um mero 'quanto'.
Me lembro de uma vez, quando da minha estada no município de Tefé, estava num espaço chamado de Mangueiras em companhia de um colega de trabalho do meu irmão, o Cabo Marcos. Nesse dia, acontecia uma festa com atrações musicais, o que redundou numa grande festa.
No final de tudo, é comum todos se dirigirem à uma casa de show que se chama Renascer, já que nas mangueiras os bares tem um horário - relativamente cedo - definido para fechar. Marcos se interessou por uma garota que provavelmente já estava sendo cortejada por outro rapaz, mas, por algum motivo, se mostrava inclinada a vir conosco (Marcos e eu). Foi nesse momento que uma de suas amigas, indignada com a situação, a questionou:
- Você vai deixar aquele cara que tem uma XRE 300 pra ir com esse que tem uma Bros?
Glenda (era o nome da garota) não respondeu e subiu na moto do meu colega. Eu fui em um transporte alternativo e nos encontramos todos no outro estabelecimento, onde curtimos a noite ao som de música ruim e cerveja barata.
Esse é um exemplo que se manifesta em várias situações cotidianas e às vezes nem nos damos conta. O fato é que o mundo segue uma ordem de tal maneira economicista/utilitarista que as próprias personalidades e o caráter são medidos pelas posses, pelos bens materiais que ostentamos.
Nesse dia, mais do que nunca, percebi que nem sempre as pessoas querem saber sobre as suas virtudes e valores morais que defende. O mundo tornou-se de tal forma superficial, obedecendo os ditames de uma quantificação que se expressa em termos racionais como peso e medidas, que às vezes não interessam suas intenções. O modelo da sua moto pode ser cabal para definir se você é digno ou não. Tudo em função de um ter em detrimento de um ser. Mais do que nunca, os valores não tem mais valor algum.
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