A Vida Póstuma

Friedrich Nietzsche 
Será que eu não fui feito para o mundo ou o mundo não foi feito para mim? Tenho essa mesma dúvida e me faço essa pergunta quase todos os dias. Assim como Niezsche, tenho a impressão de que nasci póstumo. 

Isso porque experimento de extremos problemas em adaptar-me ao mundo em que vivo. Sinto que as coisas, das formas como elas são, configuram-se patologicamente instável, tudo fora do lugar.
No mundo de hoje, todo mundo tem o dever de escolher uma religião, trabalhar e encontrar um grande amor. A minha religião eu não escolhi: fui adestrado pelo comportamento da minha família e fui praticamente obrigado a ser adventista – com certeza, se estivesse nascido no Japão tinha grandes possibilidades de ser xintoísta. Mas, felizmente, fui liberto e fui levado a ser ateu.
Quanto ao trabalho, sou extremamente reticente. Penso que, seguindo Domenico de Masi, o trabalho hoje em dia é algo retrógrado e maledicente ao verdadeiro espírito humano. Tenho extrema dificuldade de me adaptar a um emprego. Agora mesmo enquanto escrevo este ensaio deixei de ir ao meu “trampo” porque estou muitíssimo necessitado em conversar comigo mesmo, pensar na vida.

Interessante é um trecho do livro A máquina do tempo de H. G. Wells narrando o cientista que protagoniza o romance ao falar que é “ocidental demais para ficar muito tempo sem fazer nada”. 

Eu, por outro lado, devia ter nascido na aristocracia helênica, para poder dedicar-me ao ócio, contemplar o belo, desfrutar dos prazeres da existência. Mesmo sendo ocidental, minha alma implora o diálogo consigo mesmo, de viver genuinamente. Digo viver genuinamente porque o trabalho impede de se viver de verdade.
No entanto, pensar assim é antagônico ao que se diz como “bom”, “certo” e “ético”. Ser diferente disso é considerado vadiagem, malandragem, errado. Sei que vivo num mundo que não me pertence. Este só é digno aos que se adaptam às mais impressionantes patologias que a modernidade nos presenteou.
 Espero o dia em que viveremos uma liberdade genuína, em detrimento dessa hipocrisia velada que se reveste de uma moralidade hipócrita e covarde, perfeitamente observável no cotidiano moderno.

Entenda melhor:
A Máquina do Tempo - H.G Wells

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